<$BlogRSDUrl$>

quinta-feira

6º episódio - Reencontro de amigos

Fui recentemente convidado para formar parte da Irmandade da Antica Romulon, constituída, até ao momento, por uma tríade – por mim, pelo arquivista Fabrice Fermosk da Confraria de copistas do Templore e por um reconhecido monge copista, com quem desenvolvi anteriormente frequentes trocas de manuscritos, o Hipófilus. Foi ele o fundador e o autor dos preceitos desta nova Irmandade.
Este copista trabalha num austero scriptorium da parte velha da cidade de Blocellum, onde guarda incontáveis manuscritos e monumentos epigráficos. Alguns foram comprados a mercadores de terras distantes, sobretudo da Mediania, e outros são produzidos na sua própria oficina epigráfica. Logo desde o início da minha actividade na cidade, fui visitado pelo Hipófilus, daí, naturalmente, surgir este convite.
As normas desta irmandade exigem uma exclusiva dedicação à recolha e ao estudo de todos os manuscritos do extinto Império de Romulon, prevendo a existência dum ateneu de discussão, aberto a todos os estudiosos e curiosos do reino de Blogor. É a primeira vez que me vejo envolvido em dois mesteres, o que me vai exigir esforço redobrado.
A propósito deste meu novo desafio, mandei por um emissário uma carta ao Sabinus Prestus, antigo companheiro escriba e sábio da cultura Romulon que habita na distante Inland, para que se juntasse à nossa Irmandade. Negou-me cordialmente o convite. Ainda não foi desta que o consigo trazer para o reino de Blogor. O seu labor literário em Inland é bastante reconhecido e não lhe desperta o desejo de transferir-se para Blogor. Mas, suspeito que, um dia destes, não tardará muito a assomar à porta do meu bazar a anunciar-me a sua chegada. Talvez para se aplicar a outros ramos inesperados do saber e da escolástica.
A propósito deste velho parceiro da escrita, relembro que residem em Blocellum outros dois antigos companheiros de Amenion e de Inland (para além do nominado arquivista Alexadrion, que veio para cá residir por sugestão minha, como já contei anteriormente).
Deles, o mais antigo pelas andanças de Blogor é o Fran Dedlon, dedicado e insigne mestre da Confraria dos Ossos, ligada à arquitectura sacra e profana e à compilação dos saberes humanistas e anatómicos. Vive numa mansão com uma grande cave, à qual se tem acesso por meio dum verdadeiro labirinto de corredores, pequenos salões e escadas em caracol. Logo ali chegados, somos deslumbrados por imensos desenhos e estampas do corpo humano, da sua estrutura óssea e das ligações da mente ao corpo. Tanto deslumbramento provoca no visitante displicente, dificuldades em descobrir a saída do edifício, que é um verdadeiro enigma.
Conheci Fran Dedlon, por primeira vez, em actividades de pesquisa numa fortaleza de Inland. Procurando velhos manuscritos e artefactos, deparei com estranhas figuras humanas que não fui capaz de interpretar. Pedi auxílio, por intermédio dum delegado, para Amenion. Mandaram-me este mestre. Conduzi-o ao local da descoberta e pedi-lhe que me explicasse o significado daqueles vestígios. Trabalhámos em conjunto naquela recôndita fortificação, onde trocámos saberes e experiências enriquecedoras. Foi com espanto que um dia descobri que também ele tinha escutado o chamado do reino de Blogor.
Descobri ainda nesta cidade, um outro velho amigo meu, com o qual fomentei, em tempos idos, intensas buscas a velhos códices da cidade de Amenion, nomeadamente nas lides das trovas. Um dia, passando eu por uma rua comercial agitada de Blocellum, ouvi uma melodia que não me era estranha, uma poesia que me soava familiar, projectando-se do interior duma taberna concorrida. Assomei à porta e vi-o, de costas viradas para a entrada, com os seus cabelos loiros, manuseando as cordas do seu velho alaúde. Parecia ser aquele trovador dedicado e penetrante que eu conhecera. Não tinha ainda a certeza e aproximei-me. Chamei-o pelo nome e, instantaneamente, Arthon Alpandersson virou-se para mim e constatei que era ele – o scandino, bem mais magro, pois já não nos víamos há muito tempo.



Levou-me a sua casa e explicou-me que, infelizmente, estaria por cá pouco tempo e que ia ausentar-se por uma temporada, mas prometeu-me que regressaria em breve a Blogor. Durou pouco a sua estadia, mas o suficiente para deixar novas recordações da sua lírica.

segunda-feira

5º episódio - Os homens de fé.

Hoje avistei novamente uma das figuras mais carismáticas de Blogor, um profeta residente em Blocellum, oriundo das terras áridas do sul, que assentou arraiais no alfoz desta cidade, faz já algum tempo. É uma personagem muito conhecida. Quase toda a gente já se deteve a ouvir as suas dissertações e avisos de alerta. É também conhecido por dominar as artes do cantochão, que redige em alguns antifonários disponíveis no seu eremitério. Detive-me algumas vezes a escutá-lo e adquiri até um dos seus salmos.
Procurei variadas vezes interrogá-lo, nomeadamente acerca de alguns manuscritos meus provindos das Terras da Mediania, mas não despertei muito o seu interesse. Como profeta, é uma criatura muito metida no seu mundo e que gosta de manter as devidas distâncias.
Não resisto a mencionar também uma outra personalidade estranha que passou por Blogor e assentou arraiais em Blocellum - um áugure do distante reino de Hirani. Visitei amiúde o seu delubro e mantive com ele diversas conversas interessantes. Fiz-lhe inclusive variadas perguntas sobre a sua cultura que motivaram algumas trocas de ideias.
Ele foi muito mal recebido na cidade. Inexplicavelmente, alguns moradores deste reino vaiaram-no, pois não simpatizavam com a sua actividade devocional. Mas, muitos outros o receberam bem e eu próprio pude obter alguns ensinos destes encontros.
Um dia mudou-se para a cidade de Weblon, buscando, seguramente, melhores condições para o seu labor de estudo e devoção, até que, em poucos dias de estada na nova residência, abandonou tudo e partiu. Ninguém sabe dizer para onde foi ou se voltou ao seu reino de Hirani. Mas estranhei que tivesse deixado na sua casa alguns dos seus pertences e não tenha partilhado com ninguém a despedida.
Existia também um mago no quarteirão próximo do meu bazar, de seu nome Anricus. Possuía grandes livros, de pesadas lombadas, abertos sobre amplas mesas de madeira de carvalho. Neles assentava inúmeros algarismos, enquanto olhava à noite para o céu com instrumentos de cálculo que ele inventou ou trouxe de algum reino distante. Diziam que pretendia encontrar a fonte e a origem de toda a abóbada celeste. E penso que tinha fortes probabilidade de consegui-lo.



Entretanto, tal como outros fizeram, o mago abandonou este núcleo urbano e dirigiu-se para a pacata cidade de Frogúntia. Lá montou o seu observatório com melhores condições. Possui agora umas instalações muito mais condignas, onde se tem dedicado à redacção de postilas sobre os mistérios da natureza, do ser humano e da divindade. Continuo a fazer curtas deslocações até à Frogúntia, para consultar os seus opúsculos, e deparo com bastantes visitantes que o interpelam e procuram a sua sabedoria.
Entre as figuras singulares do reino, não poderia esquecer um mercador abastado proveniente das Terras da Mediania, de seu nome Eliah Nunosh. Descendente de uma família de valentes guerreiros, renegou a tendência belicista e dedicou-se a intercambiar todo o tipo de produtos da Mediania: obras literárias, rolos de pergaminhos, peças de arte, objectos votivos e até pequenos enigmas e tesouros dessa rica civilização. Ninguém possui neste reino tão admiráveis conhecimentos e artefactos destas terras distantes. Mesmo eu, que de vez em quando consigo reunir alguns manuscritos ou velharias da Terra da Mediania no meu bazar, fico deslumbrado com o exotismo das suas peças e com a sua instrução. Cheguei mesmo a trocar com este mercador alguns esclarecimentos relativos a esta cultura que foram muito profícuos.
É pena que nem todas as pessoas admirem o seu empório comercial. Há indivíduos que denotam algum desdém por esta cultura longínqua. No entanto, ele é muito elogiado no reino de Blogor, dada a qualidade da sua actividade mercantil.
4º episódio - Companheiros de actividade.

Blocellum é sem duvida o maior burgo deste território, mas desde que Weblon foi fundada, a cidade tem crescido enormemente. Dizem até que está melhor organizada e apetrechada que Blocellum. Cheguei a pensei transladar o meu bazar para aquelas bandas, pela mesma altura que o mago Fumosis se transferiu para lá. A cidade oferece outras garantias de difusão da actividade profissional e possui amplos espaços de intercâmbio.
Queria melhorar a minha loja, pois os habitantes de Blogor são muito exigentes. No entanto, o meu investimento neste local já tinha sido bastante elevado e uma mudança seria, de início, prejudicial. As clientelas são muito difíceis de manter. Optei então por fazer apenas ligeiras reformas no meu estabelecimento. Comprei madeiras exóticas da distante Afrinia, com as quais reconstruí as paredes e a fachada da loja. Renovei a tabuleta que anuncia o bazar e ampliei a área disponível.
No mesmo ramo de pesquisa das escritas antigas e de intercâmbio de artefactos primitivos, existem mais alguns mercadores e escribas que se foram instalando, pela mesma altura, no reino de Blogor. Alguns montaram os seus estabelecimentos em Blocellum, na própria Rua dos Alfarrabistas onde eu resido.
Um deles, o mestre arquivista Alexadrion, chegou a esta cidade dias depois de lhe ter endereçado algumas cartas pelo mensageiro, convidando-o a abrir um estabelecimento nestas paragens. Disse-lhe que aqui teria oportunidade de expandir o seu ramo de actividades de forma mais intensa do que no reinado do norte, onde habitava, pois havia em Blogor potenciais interessados na sua actividade. A sua biblioteca tem vindo a ser ampliada e é visitada por muitos residentes nestas paragens, curiosos dos seus textos. Possui rolos de papiros, incunábulos, almanaques e manuscritos sobre variadas temáticas, o que lhe abre as portas a maior diversidade de leitores e interessados. Possui também um arquivo de artefactos antigos espantoso. Nos seus átrios discutem-se temas pertinentes que geram, por vezes, discussões acaloradas. Não deixarei de referir que este mestre é polémico e amante das picardias da actualidade, dos segredos dos ofícios e dos mistérios da antiguidade. Frequento a sua biblioteca todos os dias e estabelecemos curiosos intercâmbios dos produtos mais interessantes. Ora lhe peço algum livro que me interessa, ora ele vem contemplar algum artefacto curioso que passa aqui pelo meu bazar e leva-o.
Esteve também aberta, na rua onde vivo, uma corporação de artesãos de olaria e cantaria clássica: os lucenses; mas não lhes correu muito bem a actividade em Blocellum. Mudaram-se para a pequena cidade de Frogúntia. Dizem as más-línguas que alguém deitou fogo às suas instalações. Estiveram para abandonar o reino de Blogor, mas optaram apenas por se transferir para aquele pacato aglomerado urbano. Não sei quantos artesãos são ao todo, pois são muito recatados e fazem-se ver raramente. Avistam-se apenas em determinados dias, conforme a fase lunar. No início, desconfiei das suas intenções e dirigi-lhes alguns impropérios: não gostei da forma como foram publicitando a sua actividade na nossa rua e como montaram a sua tenda de artes e ofícios. Mas afinal constatei que são gente trabalhadora e honesta, que apenas preza, acima de tudo, a sua privacidade. E por isso, assomo muitas vezes à sua tenda e detenho-me um pouco nas suas peças artesanais.
Há também a interessante Confraria de copistas do Templore, composta por três preceptores: o escriba Guy St. Roland, o arquivista Fabrice Fermosk e o aprendiz Luge O’Buho. Esta confraria dedica-se a esquadrinhar os antigos alfarrábios e a redigir cópias dos antigos manuscritos. A sua escrita é intensa e firme. Produzem grandes pergaminhos de nítido e excelente registo historiográfico.



Graças ao seu incansável, e pouco visível, trabalho, vão perpetuando as memórias dos manuscritos que recolhem. Também não são muito sociáveis, vendo-se raramente, o que não impede de lhes fazer alguma visita.
Entre os cronistas que vivem nestas terras, destaco ainda uma mulher que vive na cidade de Weblon, cuja produção de registos históricos é abissal. Sandiana tem um ritmo de trabalho fantástico e no seu scriptorium acumula crónicas de épocas pouco recuadas. Não a visito com muita frequência porque as suas narrações são de menor proveito para mim, mais interessado em alfarrábios e manuscritos da antiguidade, mas não deixo de admirar a sua capacidade de registo. Ainda para mais num reino pouco povoado por mulheres notáveis.
Lembro-me também de outro cronista de nome desconhecido que reside na cidade de Frogúntia. Os seus pasquins são afixados à porta da sua residência, para quem quiser ler, assinados apenas com as siglas AS. Não costuma escrever muito, mas produz textos de qualidade e interesse.
Gosto particularmente, como é óbvio, destes blogorianos. São aqueles que mais me visitam e pelos quais tento passar todas as semanas. Mas há mais como eles e todos os dias chegam novos cronistas e mercadores de antiguidades a este reino.
3º episódio - As elites locais.

Devo confessar que ainda conheço pouco sobre os nobres fundadores de Blogor e sobre os primeiros pioneiros a desbravar estas terras. Parece que alguns dos seus descendentes ainda vivem no reinado, em pequenos senhorios distantes das principais cidades. Um dos mais ilustres legatários desta família é o Príncipe Davinier. Dizem também que a Infanta Reetya D’art é das mais novas herdeiras dos primeiros colonos deste território.
Como amante das estórias antigas interessei-me pelas origens deste reino e como alfarrabista consegui ter acesso ao grande Incunábulo Blogoriano, onde recolhi alguns segredos sobre a fundação de Blogor.
O reino é formado por diversas cidades, onde a supremacia é exercida sobretudo pelas forças oligárquicas que nelas habitam. Há uma elite de sábios, nobres e mercadores que domina, ao nível das influências e das decisões, a vida nos diversos burgos, mas há mesmo assim muita liberdade de pensamento e de acção. As trocas produzem-se sem a presença de quaisquer meirinhos e são isentas do pagamento de qualquer taxa. Não há sequer uma entidade fiscalizadora e judicial que exerça qualquer espécie de restrições neste feudo, apesar de aqui viverem alguns senescais importantes. As cidades são abertas a qualquer visitante que se queira instalar por cá, não tendo por isso qualquer estrutura defensiva a guarnecê-las. São aglomerados urbanos de planície, e não povoados roqueiros, estabelecidos próximo dos terrenos férteis e dos principais itinerários do reino.
Na cidade de Blocellum, o comendador Abruptis d’Orange exerce a sua autoridade de forma patente, extravasando aos próprios limites do burgo. Ele é por muitos admirado e graças à sua presença o burgo teve grande incremento populacional. No entanto, poucos tiveram a oportunidade de o ver pessoalmente, pois manifesta bastante distanciamento com a maioria dos habitantes de Blogor e somente os membros da elite aristocrática e erudita têm contacto mais próximo com a ilustre personagem, a quem recomenda de forma indirecta as melhores estirpes de Blogor. Já visitei algumas vezes o seu palácio, onde ostenta inúmeras telas a revestir as suas paredes palacianas. Pouca diligência fiz para empreender qualquer contacto e visitar mais demoradamente o seu interior.



A mais recente cidade do reino de Blogor chama-se Weblon e foi fundada pelo comendador Pol O’keridon. Com o esmero dum mestre construtor soube conduzir a sua edificação de forma a torná-la num espaço agradável de residência. Dizem que ele conhece todos os áditos das artes e ofícios construtivos. Visito frequentemente o seu burgo e já, por uma vez, me dirigi ao comendador para obter algum aconselhamento relativo a assuntos profissionais.
O reino de Blogor não é militarizado, o que não quer dizer que não haja algumas escaramuças e discussões mais encaloradas, mas estas não chegam a merecer sequer uma guarnição permanente. Aqui habita apenas um ou outro desertor de qualquer cruzada, algumas irmandades de cavaleiros de causas perdidas ou algum que outro mercenário cansado de antigas batalhas, passeando as suas velhas cavalgaduras e armaduras, procurando novos desafios e renovadas paixões. De vez em quando também por aqui assoma algum fidalgo principiante mais aguerrido que logo se acalma.
Entre os mais conhecidos de Blocellum estão os Cavaleiros da Estrela de Marron. Dizem que provêm da grande montanha de Hermion. São muito aguerridos, mas aparentemente sociáveis, sentando-se à mesa das tabernas rindo e conversando com os transeuntes. Já algumas vezes entabulei conversa com eles, mas ultimamente pouco os tenho visto. Seus nomes são Hanimolk, Statlor e Waldin e fazem-se acompanhar por dois escudeiros. O primeiro cavaleiro, mais velho e sábio, usa um sabre canhoto e uma medusa no seu escudo. Os restantes dois, um pouco mais alvoroçadores, alardeiam as suas espadas no flanco destro e empunham um escudete. Num figuram duas faixas, vermelha e branca, em aspa e o outro ostenta um cálamo de ganso.
Já faz muito tempo que também se acomodaram por esta banda os Cavaleiros da Irmandade da Weasel. Quatro bravos e jovens guerreiros cujas façanhas são por todos ouvidas e elogiadas. Os fidalgos Yacub, Mikelon, Rijkaard e Yosuf são exímios no manejo da lança e os habitantes mais antigos relembram inúmeras vezes as suas vitoriosas batalhas travadas.
Conheço vagamente outros dois mercenários desta mesma cidade, afamados por se vangloriarem de terem morto muitos homens. Poucos conhecem os seus nomes e nem se deixam ver a cara, cobertos pelos capuzes pontiagudos de seus hábitos brancos, onde se destaca uma cruz vermelha da cor do sangue, gravada na frente.
Na cidade de Weblon radicou-se ainda outra Irmandade de renome, de seu nome os Cavaleiros da Ordem de Barnbow. Dizem que estes seis combatentes são letais e que conseguem com o manejo dos seus arcos e flechas atingir longas distâncias e serem tão precisos quanto possível.



Sempre que há alguma contenda pelo reino de Blogor é frequente algum destes cavaleiros estar implicado. Muitos temem sequer envolver-se em confronto com algum dos seus membros.
No entanto, eu não tenho nada que dizer destes guerreiros, nem convivo muito com eles, nem sequer me visitam o bazar – os pergaminhos antigos e as velharias não lhes interessam muito…

terça-feira

2º episódio - Os primeiros problemas.

Durante os primeiros tempos em Blogor, tive alguma dificuldade em atrair clientela para a minha actividade de alfarrabista, tal como pretendia. A vida quotidiana nestas terras é muito agitada e os seus habitantes vivem o dia-a-dia em perfeita rotina, frequentando os locais habituais e de restrito acesso.
As pessoas conhecem-se da rua onde vivem ou do mesmo ramo de actividade que exercem. Quem chega de novo a este burgo mercantil tem que fazer apelo das suas qualidades, divulgar o seu estabelecimento e esperar que apareçam os primeiros curiosos.
Por outro lado, o reino é regulado por alguns códigos de honra que eram desconhecidos para mim de início. Com o tempo apercebi-me das regras a cumprir: deve-se retribuir cada visita efectuada ao nosso estabelecimento e nunca deixar uma carta recebida pelo mensageiro sem a devida resposta. Compreendi então que não era fácil ganhar a confiança dos habitantes de Blogor. Isso obrigava-me a desembolsar muito tempo circulando pelo mercado, pelas oficinas, pelos bazares, pelas bibliotecas, pelas tabernas ou pelos palácios das cidades do reino. Não tenho muito vagar para deambular pelas ruas agitadas e proceder a contactos triviais com os transeuntes. Prefiro esperar no meu cantinho pelos interessados, enquanto vou actualizando as minhas leituras e escritas. A porta do bazar está a aberta, a publicidade afixada na fachada do edifício, situado a meio da Rua dos Alfarrabistas, quem quiser entrar é livre.
Não foi, portanto, fácil encontrar espaço para afirmar o meu negócio, numa cidade como esta, cheia dos mais variados sábios, artífices, mercadores e cambistas. Tive que aguardar ainda algum tempo.
Entre as primeiras pessoas a visitar o meu armazém de velharias, recordo-me do mago Piscott que, juntamente com os seus dois assistentes Lamborn e Goirator, conhecem os segredos de todos os receituários mágicos e dominam o jogo das esferas. O seu rápido interesse por algumas das minhas quinquilharias possibilitou que eu entabulasse os primeiros contactos com um habitante de Blogor. Conversámos com alguma frequência e fui tomando conhecimento dos primeiros segredos de Blogor.
No entanto, poucos meses após a minha chegada, fui também afligido por uma inesperada desgraça, quando um dia pela manhã constatei que todo o recheio do meu bazar tinha desaparecido. A ajuda chegou inesperadamente, quando já pensava regressar a Inland, da mão do mago Fumosis, especialista em incensos e ervas aromáticas.
Conhecedor dos predicados da minha loja, numa das suas visitas, deparou com o imprevisto que acabava de me suceder e prestando-se a ajudar-me, obteve as informações necessárias para lograr encontrar todos os meus antigos manuscritos e artefactos extraviados. Estavam perdidos nas caves da cidade de Blocellum (dizem que por todo Blogor se abre uma malha de labirínticos túneis sob os nossos pés. Quem conhece estes meios subterrâneos afirma que dão acesso a amplos armazéns secretos repletos de documentos, artefactos, gravuras e outros enigmas e aquele que souber guiar-se por esses antros pode tornar-se bastante poderoso. Mas, não sei que forças manobram às escondidas nesses espaços secretos).
Fiquei sem saber a causa deste súbito sumiço e nunca a pude apurar, mas o incidente nunca mais se repetiu. Desde aí este mago tem sido a minha ajuda fundamental, os seus poderes vão muito além do campo dos aromas e dos cheiros suaves. É um verdadeiro entendido nas estórias de Blogor e das suas principais personagens.

domingo

1º episódio - A chegada ao reino.

Foi num dia de Verão que cheguei ao reino de Blogor e instalei-me na cidade de Blocellum, vindo da distante Inland. Tinha lido num papiro comprado a um mercador, da fama e dos elogiados atributos desta cidade. Fiz imediatamente planos de encetar no meio desta comunidade uma nova actividade. Sou alfarrabista e aprendiz de escriba, coleccionador de manuscritos antigos e de antiguidades, cujas artes fui desenvolvendo em Amenion e posteriormente em Inland, junto de alguns mestres.
Aceitei espontaneamente o desafio de iniciar o meu labor nesta cidade, abrindo um bazar dedicado ao comércio de artefactos e de rolos de manuscritos de outros reinos já desaparecidos, com o seguinte letreiro na frontaria: «Arqüelimane – velharias e escritas antigas».
Dizem que aqui vivem muitos sábios e estudiosos das velhas escrituras e das relíquias. Por isso, embora não seja o único neste ramo de negócio, tento sempre ter nas minhas prateleiras documentos apelativos e algumas preciosidades, a um bom preço. As minhas vetustas gravuras têm bastante saída e os meus pergaminhos das Terras da Mediania são especialmente apreciados: alguns visitantes ficam até espantados com a diversidade de manufacturas que tenho desta longínqua paragem.
A cidade de Blocellum é morada de mercadores e aristocratas, cavaleiros e guerreiros, sábios e escribas, artistas, viajantes e aventureiros, druidas e magos. A sua população é constituída maioritariamente por homens solitários, à procura de aventuras e de intercâmbio de artefactos, ou por indivíduos de estudo e reflexão, fechados nas suas casas. São gentes oriundas dos mais variados reinos distantes. Alguns habitam por estas bandas há algum tempo, desde que se fundaram as principais cidades do reino, outros chegaram recentemente. Mas todos os dias há neófitos, dado que Blogor se situa na encruzilhada de uma rede de caminhos e, por isso, é visitado por muitos forasteiros de passagem. Alguns sedentos de agitação e outros na procura de matérias raras, alguns dispostos a intercambiarem produtos e outros apenas curiosos da vida neste reino, para voltarem às suas terras e contarem o que aqui encontraram.
Mas o reino de Blogor possui abundantes segredos e conhecem-se muitas lendas em torno dos seus habitantes. Narram-se épicas façanhas de alguns dos seus moradores, escondem-se muitos mistérios por detrás de determinadas personagens ilustres. Como escriba, tenho-me dedicado a redigir estas estórias num grande almanaque que irei revelando proximamente.
Site Meter

This page is powered by Blogger. Isn't yours?